Apesar da preguiça das muitas mineirices que cercam a moda e a cultura (pra bom entendedor meia palavra basta), há elementos da terra das alterosas que fazem com que aquela pontinha de orgulho (de boa mineira) dê seu grito. A dança é um deles. Já há alguma décadas que companhias como Primeiro Ato, Quik, o próprio Palácio das Artes e, sem maiores explicações, o Corpo, destacam-se mundialmente no cenário da dança contemporânea, certo? Há, no entanto, muito mais nomes do que os que atingem os holofotes, em um riquíssimo movimento que abrange todo o estado.
Thembi Rosa é bailarina, coreógrafa e pesquisadora. Formada em Letras pela UFMG, subiu aos palcos em 1990 e se aventurou no primeiro solo em 2000. Participou do Grupo Experimental do Palácio das Artes; Grupo Oficcina Multimédia e do Clube Ur=Hor (com Adriana Banana), além de projetos de peso com apoio do Rumos (Itaú Cultural), FID (Forum Internacional de Dança) e da Funarte. Thembi tem seu nome envolvido em trabalhos com O Grivo (música), Alejandro Ahmed e Rodrigo Pederneiras (coreografia).
"Confluir" (foto: Daniel Mansur) e "Alarm Floor"
Em ação
Alarm Floor é um trabalho multidisciplinar e uma resposta à seguinte questão, segundo os próprios artistas: “quais as diferenças entre dançar uma coreografia e uma estrutura improvisada?”
A instalação é de Rivane Neuenschwander e o vídeo de Roberto Bellini.
Os objetivos:
- estar fora da caixa preta do palco;
- explorar a co-definição entre dança, som e espaço;
- aguçar a percepção do instante;
- observar, observar-se a si mesma, ser observada;
- perceber e explorar continuamente princípios de movimentos …
Ficha Técnica:
Projeto e bailarina: Thembi Rosa
Instalação: Rivane Neuenschwander em colaboração com O Grivo
Sonorização e trilha sonora: O Grivo
Figurino: Ronaldo Fraga
Vídeo: Roberto Bellini
Projeto viabilizado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna/2007
Se você gosta de dança, não perde. Está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, as coreografias Ímã e Bach do já citado mineiro Grupo Corpo. O espetáculo fica até o dia 16 de agosto. Corra, porque costuma lotar!
In-Presentable é uma junção de palavras em duas línguas, do inglês e do espanhol, fundem o que está em movimento, ou o nosso velho termo conhecido da moda “in” ao que traduzido nos soa: “apresentável”. Em uma leitura rápida o som é do oposto: o inapresentável. Essa confusão é proposital.
In-Presentable é um festival multi-disciplinar que acontece em Madri, desde 2003. Dura 12 dias e 12 noites, nos quais artistas da dança unem-se em um lugar: La Casa Encendida, para apresentações, debates e works in progress acerca dos procesos relativos ao corpo e à dança, utilizados pelas artes visuais, cinema, música, arquitetura, publicidade, ciências e todos os meios de comunicação. Em sua nona edição (17 a 28/06/2009), 14 artistas participantes de um projeto de pesquisa e criação, o 6M1L /ex.e.r.ce.08 (ocorrido em Montpellier, de julho a dezembro de 2008) dividem a curadoria com Juan Dominguez, organizador do festival. Estiveram no 6M1L/ex.e.r.ce.08 artistas como Gérald Kurdian, que abriu o In-Presentable com Documancipation#1; Mette Ingvartsen e Jefta van Dinthe, com “It’s in the air” , e dois brasileiros: Neto Machado e Thiago Granato.
Apresentação In-Presentable
JUAN Dominguez, bailarino e curador do festival, nos fala sobre a proposta do In-Presentable e suas novidades como festival de dança.
Sobre a proposta do festival Juan diz que “o In- Presentable é um evento que mistura debates e apresentações, público e bailarinos na mesma cena, criando um contexto em que se confrontam diferentes frentes: a educação, o apoio à criação jovem de Madri, a visibilidade trabalhos nacionais e internacionais e a relação com os espectadores, fazendo-os participarem de formas diferentes da criação coreográfica.” “O que eu quero é que o In – Presentable seja uma plataforma em que artista e espectador criem e produzam em um mesmo tempo/espaço e que se possa canalizar a experiência de ambos.”
Pergunto, então, como de fato se dá a participação do espectador – público não relacionado à dança?
“A maioria do público, curiosamente, não pertence ao meio. Há atividades orientadas para todos, os que estão e os que não estão inseridos. A sugestão é que o espectador se posicione livremente diante das propostas do festival e trabalhe de acordo com o que se sente à vontade. O objetivo aqui é o debate e o posicionamento. Uma aproximação entre público e artista e com a dança, a arte e, sobretudo, um afastamento do mercado.”
O que há de novo no In – Presentable?
A rede que se formou e começa a ter atividade bimestral a partir de setembro. A próxima edição em junho de 2010, que terá a participação apenas de artistas espanhóis. E a energia que seguiremos investindo nas políticas deste festival, que é peculiar por propor um contexto de trabalho para todos, onde se é forçado a pensar e a compartilhar a experiência da participação.
THIAGO, que apresentou “We are not superficial, we love penetration“, é um bailarino nascido em Santos e residente do mundo. Define-se como estrangeiro em qualquer lugar. No festival, disse, sentiu-se à vontade. “Lá os feedbacks foram muito importantes para todo o processo” e conta como foi sua participação.
Imagens de "We are no superficial, we love penetration" fotos por Léo Nabuco
Primeiro fale sobre a relação entre o 6M1L /ex.e.r.ce.08 e o In – Presentable.
Durante o festival in -presentable não ouve distinção entre os dois grupos em termos de responsabilidade e espaço para apresentação de projetos.
Havia projetos diretamente relacionados com a experiência do contato do grupo 6m1L com o exerce 08, no ano de 2008, mas havia outros independentes do programa ocorrido em Montpellier.
O que havia de comum entre todos era a disponibilidade para colaborar, uns com os outros, em diferentes níveis, desde feedbacks até ajuda técnica.
“We are not superficial, we love penetration” foi apresentado no Brasil (SESC Paulista) com mais quatro bailarinos brasileiros. Como foi no In-Presentable? Qual foi a recepção do público?
Esse trabalho carrega ainda várias questões que estão em aberto para mim. Talvez por ele ter sido produzido num momento de grande transformação, que foi o período da formação Exerce 8, em Montpellier, no ano passado.
Mesmo que algumas coisas ainda não estejam claras para mim em relação a ele, sinto que o público no geral é seduzido pela brincadeira irônica da camuflagem que o trabalho propõe. Sinto que essa sedução é construída pelo mistério da lógica que usamos na construção dramaturgica e ao mesmo tempo pelo descomprometimento (superficialidade) com que tratamos do assunto.
Sinto que o jogo é comprado pelo público porque ouço a reação do público durante a apresentação. Em São Paulo e em Madrid muitos sons foram produzidos como reação as imagens que construíamos.
Os feedbacks foram muuuuuito importantes, em ambos os lugares.
Qual a maior novidade trazida pelo In-Presentable ao público, qual a sua maior qualidade?
O que enxergo de “novo” é a possibilidade de incluir o olhar dos espectadores dentro da criação dos artistas e vice-versa, repensando os papéis de um e de outro. Além do que numa época como essa, onde o sistema do mercado está completamente estruturado para cada vez mais nos separar, desativando nossos corpos pensantes dentro de uma sociedade hiper mega mix consumista, acredito que ações de compartilhamento como essas são um tanto subversivas por nos convidar a repensar nossa liberdade e responsabilidade na possível recriação cotidiana desse mesmo mundo. Ui!
Post de despedida bem atrasado, mas válido, porque lendas não perdem a atualidade.
Pina Bausch (1940 – 01.07.2009)
Sabe aquela história de que o mérito do bailarino é camuflar a dor com a graça? Se o bailarino for Pina Bausch, pode esquecer. Sinceridade, obstinação e diversidade são palavras que a descrevem bem. Embuste, padronização e rigidez, não.
A alemã descobriu cedo sua vocação, e aos quinze anos foi estudar em Essen, com o coreógrafo Kurt Jooss. De lá partiu para Nova York: Julliard School e Metropolitan Opera. Foi onde aprendeu as rígidas regras da dança clássica e, com perfeição, a quebrá-las. Aos 33, Pina foi convidada a dirigir o Wuppertaler Tanztheater, em 1973. E foi nessa cidade alemã (Wuppertaler) que Pina revolucionou a dança moderna, misturando-a com o teatro por “ficar entediada com a falta de uma carga emocional”. No fim dos anos setenta a coreógrafa chocou o mundo rompendo com tradicionalismos e saindo do programa: renovando a sua já nova dança-teatro. A partir daí existe a dança antes e depois de Pina Bausch.
Suas peças são intensos jorros, nos quais os bailarinos correm, gritam, jogam-se contra a parede, se emocionam e dançam. A realidade de que necessita interfere também em seus cenários, que são de terra, flores, água, às vezes um muro caindo; porque Pina gosta de “ver a interferência desses elementos orgânicos no movimento”. Assim como as emoções, a diversidade delas também é ponto crucial para Bausch e sua companhia é formada por profissionais de todos os cantos do mundo. Da festa de seus 25 anos na Wuppertaler Tanztheater , em 1998, participaram outros bailarinos, como a companhia belga Rosas e Mikhail Baryshnikov, mas também grupos de hip hop e Caetano Veloso. O mesmo se repete em seus festivais culturais e nas trilhas sonoras de suas peças. Nestas ela já usou, além de Caetano, Tom Jobim e Vinicius de Morais. O Brasil também foi tema de peça, “Água”, de 2001. Tão adorada por tantos universos, Pina está sempre contato com o melhor deles. No cinema já participou de um Fellini: E La Nave Va (1983), e de um Almodóvar: Fale com Ela (2001).
Tendo deixado para o mundo peças como “Sagração da Primavera” (1975) e “Café Müller” (1978) entre incontáveis obras-primas, Pina Bausch deve ser mesmo referida no presente. A mulher que emancipou a linguagem da dança faz vivo seu legado. Enquanto ela não sofrer outra revolução, Pina continuará atual.